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sexta-feira, 16 de abril de 2010

A Lei do Fundo Petrolífero (de 2005) e o seu contexto histórico

Este ano, por imposição da própria Lei do Fundo Petrolífero aprovada e publicada em 2005, é o primero ano em que é possível reve-la.Não vamos aqui adiantar nada sobre eventuais linhas de força que poderão ajudar a dar forma a tal revisão mas sim recordar --- é sempre bom recordar... --- o contexto histórico em que a lei em vigor foi aprovada.Um dos elementos principais desse contexto é, certamente, a história e as perspectivas de evolução do preço do petróleo bruto no mercado internacional naquela época. O gráfico abaixo retrata o panorama que então se vivia (desde 2000 até 2005).




Como se pode verificar, o preço do crude sempre sofreu de alguma instabilidade mas, em média, terá rondado os cerca de 25 dólares por barril até meados de 2003 (mas em Dezembro de 1998 andou pelos 8-9 dólares por barril). A partir dessa altura entrou numa fase de aumento quase constante e em meados de 2005, quando a Lei foi aprovada, o preço atingia os cerca de 60 USD/barril. Recorde-se que actualmente o seu preço ronda os cerca de 80 USD/barril.
Com base nos valores de então estimou-se, com o conservadorismo que é de bom tom neste tipo de previsões, que as receitas anuais do Fundo Petrolífero poderiam sustentar uma transferência anual de cerca de 70 milhões de dólares para o Orçamento Geral do Estado. Este valor, que hoje parece ridiculamente baixo face aos montantes actualmente transferidos, resulta, como dissemos, da adopção de estimativas cautelosas das receitas previsíveis (ver o gráfico abaixo, retirado do documento para discussão pública da Lei do Fundo publicado em 2004).






Comparem-se agora as estimativas acima com as que figuram abaixo e que foram publicadas no relatório de 2009 do FMI sobre a economia timorense. Reparem-se nas diferentes escalas do eixo lateral e no que isso significa em termos de diferença, para muito mais, das receitas actuais face às previsões do passado.
Por exemplo, o "pico" de receitas estimado anteriormente deveria ocorrer em 2011 com um pouco menos de 400 milhões de USD. Na verdade o pico, devido ao elevado preço do petróleo nesse ano, verificou-se em 2008 com bem mais que 2000 milhões.



Estas diferenças de escala ajudam a compreender o perfil da Lei adoptada em 2005. Tal como ajudam a compreender as posições recentes do governo no sentido de aumentar significativamente os recursos a utilizar anualmente.
Parece evidente que, estritamente do ponto de vista financeiro e em comparação com o que era o horizonte de 2005, existe uma margem de manobra para aumentar as despesas no curto-médio prazo.
Mais importante do que isso, porém, será definir qual o acréscimo admissível em função de uma política de poupança do país e da capacidade de execução orçamental sem desperdício de recursos, por um lado, e, talvez principalmente, em que sectores é que o acréscimo de recursos serão prioritariamente gastos. Talvez isso possa, mesmo, ser vertido na letra da lei reformulada, terminando com a norma de não imposição de qualquer restrição ao uso dos recursos. Por exemplo, fará sentido obrigar a que pelo menos 2/3 dos recursos sejam obrigatoriamente gastos em "despesas de desenvolvimento"?

Fonte: A. M. de Almeida Serra

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Dinheiro da assistência internacional e do Petróleo para Timor Leste

A ONG La'o Hamutuk acaba de publicar mais um dos seus sempre importantes boletins informativos. Um dos temas abordados é o dos recursos financeiros de que Timor Leste beneficou desde 1999 com origem na ajuda internacional e na exploração do petróleo no Mar de Timor. Aconselhamos vivamente a sua leitura.Entretanto aqui ficam, com a devida vénia, os dois quadros resumo que o boletim inclui.
Publicada por A. M. de Almeida Serra

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Relatório trimestral de Dezembro do Fundo Petrolífero

O banco central de Timor Leste, a Autoridade Bancária e de Pagamentos, publicou hoje no seu 'sítio' na internet o relatório de gestão do Fundo Petrolífero relativo ao quarto e último trimestre de 2009. Dele consta a situação patrimonial em 31 de Dezembro e a evolução verificada nas contas do Fundo entre 1 de Outubro e o fim do ano passado.
Refere-se, nomeadamente, que o capital do Fundo passou de 5301,57 milhões de dólares (que alguns designariam por 5,3 biliões de dólares) para 5376,63 mil milhões.
Esta verba, que significa um aumento de apenas 75 milhões de USD durante o trimestre, é o resultado de uma entrada bruta de receitas (impostos e direitos de exploração petrolífera) de quase 400 milhões de USD e de uma saída de dinheiro para financiamento do Orçamento Geral do Estado de 312 milhões (ver quadro abaixo) ao longo dos 3 meses.
A verba global retirada ao longo do ano foi de 512 milhões de USD, praticamente mais 100 milhões do que o "rendimento sustentável" calculado para 2009.
Foi a primeira vez que este limite foi ultrapassado (+25%).
No quadro abaixo podem-se comparar as informações financeiras de 31 de Dezembro passado com as do final do trimestre anterior e do fim de 2008.
Publicada por A. M. de Almeida Serra

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Fundo Petrolífero de Timor Leste: capital no fim de Novembro/09

De acordo com as Estatísticas Monetárias disponíveis no 'sítio' da Autoridade Bancária e de Pagamentos de Timor Leste o capital do Fundo Petrolífero era, no fim de Novembro passado, de 5.464 mil milhões de USD.
O gráfico abaixo mostra a evolução mensal do capital do Fundo ao longo da sua vida (início: Setembro/2005). Assinalados a vermelho estão os valores no final de cada ano desde 2005.
Como se pode verificar, em 2007 houve um acréscimo de cerca de 1000 milhões e em 2008, graças ao grande aumento do preço médio do petróleo, um aumento de um pouco mais de 2000 milhões. A diminuição do preço do petróleo em 2009 relativamente a 2008 (de quase 100USD/barril para pouco mais de 60) deverá fazer baixar o acréscimo registado durante o ano passado para os cerca de mil milhões (valores a confirmar ou infirmar quando for publicado o relatório do Fundo relativo às suas operações durante o quarto trimestre de 2009 durante os primeiros dias de Fevereiro).

Como, segundo os relatórios trimestrais do FP já publicados, o Governo tinha pedido até ao fim de Setembro passado a transferência de (apenas) 200 milhões de USD do Fundo para o OGE, admite-se que o resto do levantamento autorizado pelo Parlamento tenha sido efectuado durante o último trimestre de 2009. Estarão em causa cerca de (mais) 300 milhões de USD.

Publicada por A. M. de Almeida Serra

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Ainda o documento do FMI: o petróleo e o gás de Timor

Numa das páginas do relatório do Artº IV a que fazemos referência na 'entrada' anterior vê-se a seguinte "caixa de texto". Pelo seu interesse permitimo-nos deixar aqui a referida página, em que se pode ver um mapa com os locais de produção (actuais, como Bayu-Undan, ou previstos, como o Greater Sunrise) e um gráfico com a evolução previsível das receitas de exploração do petróleo e do gás (a maior riqueza até é de gás, já vendido para o Japão).

Note-se que o campo petrolífero em produção, Bayu-Undan, já atingiu o máximo da sua produção anual, indo a mesma decaindo ao longo do tempo até meados da década de '20.Este "perfil de vida" do campo é o usual na indústria extractiva de petróleo: a produção máxima de um campo é atingida poucos anos (3-4) depois do início da exploração e esta tende a durar, no total, cerca de 20-25 anos.

Daí o ser necessário fazer uma reserva de recursos que prepare o país para o pós-petróleo. É essa a principal função do Fundo Petrolífero de Timor Leste, um "fundo soberanos" cujos activos são apenas de natureza financeira e, até ao momento, apenas em dólares americanos. Ainda que se acredite haver alguns poços por descobrir no Mar de Timor, é muito possível que a vida útil total deles não ultrapasse os anos '40 ou '50 deste século. O que é já amanhã!...

PS - "Pequena" legenda para os mais leigos no assunto: a JPDA é a "Joint Petroleum Development Area" acordada entre Timor Leste a Austrália e que durará até que estas --- na verdade a Austrália --- decidam estabelecer um acordo sobre as fronteiras marítimas definitivas. Lá para 2055, mais ou menos.A zona a amarelo no mapa corresponde às áreas sob total jurisdição timorense e cujos contratos de pesquisa (e futura e eventual exploração) já foram assinados (nomeadamente com a italiana ENI).A zona a verde corresponde às áreas concessionadas da JPDA.

Como se pode verificar, o Greater Sunrise, a zona de exploração de que ainda se discute onde vai ser instalada a fábrica de liquefação do gás natural para permitir que ele seja transportado (para o Japão), está só parcialmente dentro da JPDA. Como as fronteiras definitivas naquela área poderão vir a ficar mais a oriente que o actual limite "à direita" da área de exploração conjunta, Timor Leste e a Austrália acordaram em que as receitas serão distribuídas igualmente entre os dois países, ao contrário do que acontece com Bayu-Undan, em que Timor recebe 90% dessas receitas.
Publicada por A. M. de Almeida Serra